Cannabis medicinal: segurança e efeitos adversos em pets
A cannabis medicinal e sua segurança têm sido cada vez mais discutidas como parte de abordagens terapêuticas complementares em pets. Com o aumento do interesse por esse tipo de tratamento, surgem dúvidas importantes relacionadas aos possíveis efeitos adversos, riscos e à necessidade de acompanhamento médico-veterinário adequado.
Embora o canabidiol (CBD) apresente um perfil de segurança considerado favorável quando comparado a outros fármacos, isso não significa que seu uso seja isento de riscos. Por esse motivo, compreender os aspectos de segurança é fundamental para uma prática clínica ética, responsável e baseada em evidência científica.
Este artigo aborda os principais pontos relacionados à segurança da cannabis medicinal veterinária, seus possíveis efeitos adversos e a importância do acompanhamento médico-veterinário.
Segurança da cannabis medicinal na medicina veterinária
A segurança da cannabis medicinal depende de diversos fatores, incluindo espécie, peso, condição clínica, formulação utilizada, dose e duração do tratamento.
Na prática clínica, o CBD é o fitocanabinoide mais empregado justamente por não apresentar efeito psicoativo e por demonstrar melhor tolerabilidade em cães e gatos quando utilizado de forma adequada.
No entanto, segurança não significa ausência total de efeitos adversos, mas sim que os riscos são previsíveis, monitoráveis e, na maioria dos casos, reversíveis quando há acompanhamento profissional.
Sistema endocanabinoide em animais e tolerabilidade
O sistema endocanabinoide em animais está envolvido na regulação de funções essenciais como dor, inflamação, comportamento, apetite e resposta ao estresse. A interação dos canabinoides com esse sistema explica tanto os possíveis benefícios quanto os efeitos indesejáveis.
A tolerabilidade ao uso de canabinoides pode variar entre indivíduos e espécies. Por isso, a resposta clínica deve ser avaliada de forma contínua ao longo do tratamento.
Possíveis efeitos adversos do CBD em pets
Os efeitos adversos associados ao uso do CBD em pets são, em geral, considerados leves a moderados quando comparados a outros medicamentos de uso contínuo.
Entre os efeitos mais relatados estão sonolência, sedação leve, alterações gastrointestinais como diarreia ou redução do apetite, além de mudanças comportamentais transitórias.
Embora na maioria dos casos, esses efeitos estão relacionados à dose utilizada e tendem a melhorar com ajuste posológico ou redução gradual da dose.
Interações medicamentosas e monitoramento clínico
Um dos pontos mais importantes relacionados à segurança da cannabis medicinal veterinária é o potencial de interação medicamentosa. O CBD pode interferir em enzimas hepáticas responsáveis pelo metabolismo de diversos fármacos.
Isso é especialmente relevante em pets que fazem uso contínuo de anticonvulsivantes, anti-inflamatórios, analgésicos ou outros medicamentos de uso crônico.
Desta maneira, o acompanhamento veterinário é essencial para avaliar possíveis interações, ajustar doses e monitorar parâmetros clínicos e laboratoriais quando necessário.
THC em pets: riscos e cuidados essenciais
Diferente do CBD, o tetrahidrocanabinol (THC) apresenta risco elevado para animais, especialmente cães. A ingestão ou administração inadequada de THC pode causar efeitos neurológicos significativos.
Entre os sinais de intoxicação por THC estão ataxia, desorientação, vocalização excessiva, alterações cardiovasculares, hipersensibilidade a estímulos e, em casos graves, depressão do sistema nervoso central.
Por esse motivo, formulações veterinárias são cuidadosamente selecionadas, priorizando perfis seguros e sempre sob prescrição médico-veterinária.
Importância da titulação gradual da dose
A titulação gradual da dose é um dos princípios fundamentais da segurança na cannabis medicinal veterinária. A abordagem conhecida como “start low, go slow” permite avaliar a resposta individual do animal e reduzir o risco de efeitos adversos.
O ajuste de dose deve ser feito de forma progressiva, com acompanhamento clínico, respeitando as particularidades de cada paciente.
Essa individualização é um dos principais diferenciais do uso responsável da cannabis na medicina veterinária.
Acompanhamento veterinário na cannabis medicinal segura
O acompanhamento médico-veterinário é indispensável para garantir segurança no uso da cannabis medicinal em pets. Ele assegura diagnóstico correto, definição de objetivos terapêuticos claros e monitoramento contínuo da resposta clínica.
Além disso, o acompanhamento evita a automedicação, prática que pode colocar a saúde do animal em risco e comprometer a credibilidade da terapia.
Portanto, associações e profissionais têm papel essencial ao orientar tutores, combater desinformação e reforçar a importância da prescrição responsável.
Quando suspender ou reavaliar o uso
Em alguns casos, pode ser necessário suspender ou reavaliar o uso da cannabis medicinal veterinária. Isso pode ocorrer diante de efeitos adversos persistentes, ausência de resposta clínica ou surgimento de interações medicamentosas relevantes.
Contudo, a reavaliação periódica faz parte de uma prática clínica segura e alinhada à medicina baseada em evidências.
Conclusão
A cannabis medicinal tem potencial para ser utilizada de forma segura em contextos específicos, desde que se realize prescrição adequada, acompanhamento profissional e uso responsável. O CBD apresenta perfil de tolerabilidade favorável, mas não é isento de riscos.
Em síntese, segurança, individualização do tratamento e acompanhamento médico-veterinário são pilares essenciais para garantir o bem-estar animal e a eficácia terapêutica.
Dra. Mariah Melrinho – CRMV – 57706/SP
