Cannabis medicinal na medicina veterinária: usos, segurança e ciência
A cannabis medicinal na medicina veterinária tem ganhado destaque nos últimos anos como uma área emergente de estudo e aplicação clínica. O interesse crescente está relacionado à busca por abordagens terapêuticas mais individualizadas, especialmente em animais que apresentam dor crônica, ansiedade, epilepsia, processos inflamatórios ou condições associadas ao envelhecimento.
No entanto, apesar do aumento da procura, ainda existe muita desinformação sobre o tema. Por esse motivo, é fundamental compreender o que a ciência realmente demonstra, quais são os limites do conhecimento atual e por que o acompanhamento médico‑veterinário é indispensável para um uso seguro e responsável.
Este artigo funciona como um conteúdo pilar introdutório, reunindo as principais bases científicas, conceituais e clínicas da medicina veterinária canabinoide.
O que é a cannabis medicinal na medicina veterinária
A medicina veterinária canabinoide é o campo que estuda a interação dos canabinoides com o organismo animal, com foco terapêutico e sempre dentro de critérios científicos e éticos.
De forma geral, essa abordagem se baseia na atuação dos canabinoides sobre o sistema endocanabinoide, um sistema fisiológico presente em mamíferos, incluindo cães e gatos, responsável pela regulação do equilíbrio interno do organismo.
Dessa forma, a cannabis medicinal não atua de maneira isolada, mas como um modulador de processos fisiológicos já existentes no corpo do animal.
Sistema endocanabinoide em animais e a cannabis medicinal
O sistema endocanabinoide em animais é composto por:
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receptores canabinoides (principalmente CB1 e CB2)
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endocanabinoides produzidos pelo próprio organismo
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enzimas responsáveis por sua síntese e degradação
Além disso, esse sistema está distribuído no sistema nervoso central, sistema imunológico, trato gastrointestinal, pele e outros tecidos.
Consequentemente, ele participa da modulação de funções como:
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dor
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inflamação
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comportamento
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resposta ao estresse
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apetite
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sono
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equilíbrio imunológico
Essa ampla atuação explica o interesse científico na medicina veterinária canabinoide.

Substâncias da cannabis medicinal na medicina veterinária
Na prática clínica, os principais compostos estudados são os fitocanabinoides, especialmente:
Canabidiol (CBD)
O CBD é o canabinoide mais utilizado na medicina veterinária, principalmente por:
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não apresentar efeito psicoativo
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possuir perfil de segurança mais favorável
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apresentar potencial modulador da dor, ansiedade e inflamação
Por esse motivo, a maior parte dos estudos e aplicações veterinárias envolve formulações ricas em CBD.
Tetrahidrocanabinol (THC)
O THC exige cautela extrema na medicina veterinária.
Em cães, por exemplo, ele pode causar efeitos adversos significativos quando utilizado sem controle.
Assim, qualquer abordagem envolvendo THC deve ser feita exclusivamente sob prescrição e acompanhamento veterinário rigoroso, respeitando doses, formulações e indicações específicas.
Principais áreas de interesse clínico
A literatura científica e a prática clínica observacional apontam interesse no uso da cannabis medicinal veterinária em condições como:
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ansiedade e alterações comportamentais
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dor crônica e osteoartrite
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epilepsia refratária
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processos inflamatórios
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cuidados paliativos e qualidade de vida
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suporte a animais idosos
No entanto, é fundamental destacar que nem todas as condições possuem o mesmo nível de evidência científica, e que o uso deve ser sempre criterioso.
Segurança e efeitos adversos
A segurança é um dos pilares da medicina veterinária canabinoide.
Embora o CBD apresente bom perfil de tolerabilidade, podem ocorrer efeitos adversos, como:
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sonolência
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alterações gastrointestinais
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mudanças comportamentais leves
Além disso, interações medicamentosas são possíveis, especialmente em animais que fazem uso contínuo de anticonvulsivantes, anti-inflamatórios ou outros fármacos.
Portanto, a automedicação em animais é fortemente contraindicada.
Importância do acompanhamento médico-veterinário
O acompanhamento veterinário é indispensável no uso da cannabis medicinal em animais por diversos motivos:
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diagnóstico correto
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avaliação da real indicação
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escolha da formulação adequada
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titulação segura da dose
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monitoramento de resposta clínica
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prevenção de efeitos adversos
Dessa forma, o tratamento se torna seguro, individualizado e alinhado à medicina baseada em evidências.
Aspectos éticos e responsabilidade profissional
A medicina veterinária canabinoide deve ser exercida com responsabilidade, transparência e ética.
Nesse contexto, associações e profissionais têm papel essencial ao:
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educar tutores
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combater promessas irreais
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reforçar a importância da prescrição
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promover o uso responsável
Assim, o foco deixa de ser o produto e passa a ser o bem‑estar animal.
Conclusão
A cannabis medicinal na medicina veterinária representa um campo promissor, porém ainda em consolidação científica. Seu uso pode trazer benefícios em contextos específicos, desde que seja conduzido com critério, conhecimento técnico e acompanhamento médico‑veterinário.
Em síntese, informação baseada em ciência, responsabilidade profissional e individualização do tratamento são os pilares para um uso ético e seguro da medicina veterinária canabinoide.
Dra. Mariah Melrinho – CRMV – 57706/sp